ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 565 - 24/11/2009
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Reportagem a distância 
Postado por Luiz Weis em 30/11/2008 às 2:53:29 PM
 
 

Não vai dar certo. E se der certo é porque algo está errado.

 

Um dia desses, James Macpherson, dono do jornal online Pasadena Now – da cidade do mesmo nome, com 140 mil habitantes, a menos de 20 quilômetros do centro de Los Angeles – demitiu os seus sete empregados americanos, entre eles cinco repórteres a quem pagava cerca de US$ 2.800 mensais, e os substituiu por seis indianos.

 

Que moram na Índia.

 

É isso mesmo. Ele terceirizou para o outro lado do mundo, a 10 mil quilômetros de distância, a cobertura de sua cidade.

 

Os free-lancers indianos, que aceitam trabalhar pela miséria de US$ 7,50 por mil palavras de texto, foram contratados a partir de anúncios – na internet, claro. Um deles, no caso uma mulher de Mysore, no sul da Índia, nem se considera jornalista. “Eu tento fazer o melhor, mas nem sempre acerto”, admitiu ela à colunista Maureen Dowd, do New York Times, que conta a história no jornal deste domingo, 30.

 

A “repórter”, por exemplo, imaginou que Rose Bowl fosse um evento gastronômico (Bowl é terrina, prato fundo) e não um importante acontecimento esportivo em Pasadena (Bowl é também estádio).

 

Mas como é que funciona?

 

Pautados por Macpherson e sua mulher, os terceirizados apuram o que se lhes pede, falando com as fontes por telefone, skype e e-mail, depois de mergulhar nos sites e blogues de Pasadena. Na internet eles também pegam press-releases, dados e entrevistas, além de acompanhar as transmissões ao vivo da Câmara Municipal.

 

Com isso eles acompanham desde o trivial variado, como a inauguração da árvore de Natal da cidade, aos assuntos mais quentes, como os debates na Câmara sobre a proibição do uso de sacolas plásticas por lojas e supermercados.

 

Todos, naturalmente, falam e escrevem inglês fluentemente. Nenhum jamais pôs os pés em Pasadena.

 

Para Macpherson, tanto faz como tanto fez. Ele diz que o seu jornalismo é “g-local”. O gê é de global. Reconhece que o seu jornalismo a distância é menos acurado que o tradicional, em papel ou online. “Alguma coisa se perde”, concede, mas acha que isso é detalhe. A propósito, ele está convencido de que muitos jornais impressos são cadáveres ambulantes e que o negócio é investir em alternativas menores, mais ágeis e “internetcêntricas”. “Precisamos todos nos preparar para o inevitável”, profetiza.

 

É o que parece achar também o presidente do conglomerado de comunicação MediaNews Group, Dean Singleton, dono de 54 diários americanos, entre eles um de Pasadena e o mais conhecido Denver Post, do Colorado. Ele disse numa conferência que a idéia da empresa é terceirizar praticamente todas as atividades relacionadas à produção jornalística.

 

“E se tiver que terceirizar para o estrangeiro, que seja”, deu de ombros. “No mundo computadorizado de hoje, se a sua mesa fica no fim do corredor ou do outro lado do planeta, isso não tem a menor importância”.

 

Para o que essa gente deve entender por jornalismo, claro que não tem.
Comentários (12)
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Flávio  Salles, Filosofo (Belém/PA)
Enviado em 5/12/2008 às 2:00:32 PM

Estive no site do Pasadena.Now , de pronto dá pra perceber que se trata de uma cidade "enlatada" tipica do interior dos EUA. Onde tudo acontece segundo script do anos 50,60 , Acabei dando razão ao Editor do Jornal: Prá quê gastar mais para "cobrir" o que já está fixado dentro de padrões prefixados pela caretice estadunidense... Jornais como estes devem existir centenas pelo país. Bem parecido com o que aqui conhecemos como a Mídia de massas tipo revistas como VEJA, ISTO É, etc... Com a diferença que aquí os scripts são outros...
Elcio  Machado, Cidadão (Assis/SP)
Enviado em 2/12/2008 às 5:14:18 PM

Meus agradecimentos ao Urariano, pela explicação. Contudo, que o título fica estranho, lá isso fica. Quanto à primeira frase do texto, é simplesmente magistral: "Não vai dar certo. E se der certo é porque algo está errado." Mutatis mutandis, como diriam os doutores advogados, bem que tal frase poderia se aplicar à norma culta, no presente caso. Em todo o caso, o primeiro comentário ao texto, feito por Justo Justus, diz o que está errado, por dar certo o jornalismo à distância: "talvez falte algo mais grave: quem queira jornalismo."
Ivan  Moraes, sem profissao (Newark, NJ/MG)
Enviado em 2/12/2008 às 4:46:05 PM

1--"precisava saber se houvess uma agência do meu banco perto de onde eu ia ser naquela tarde. Liguei pro número indicado para "localização de agências": (risos) va direto ao google earth e ache a sua casa, depois entre o nome do banco. Eh rapidissimo. So nao tem charme de sotaque! 2--nao eh tao ruim assim, Weis. Pra comecar, o jornal fica mais isento politicamente. Pra segundar fica livre de estrelismo local, seja ele de reporter, policia, bandido, coroné, ou "estrela" do dia. E ainda tem o melhor: isencao racial.
Leonardo  Fuhrmann, jornalista (São Paulo/SP)
Enviado em 2/12/2008 às 11:01:10 AM

Em relação a 80% do jornalismo praticado aqui no Brasil (incluídos nisso os grandes veículos de comunicação), a única novidade é o fato de os contratados serem indianos. Mas, francamente, para fazer reportagem de cidades sem conhecer a realidade local, tanto faz ser paulistano, indiano ou até mesmo marciano. Que venham os timorenses ...
Anselmo  NF, adm (Sorriso, BR/Mt)
Enviado em 2/12/2008 às 10:34:01 AM

Quanto ao raciocinio exposto no texto, cabe uma analogia perfeita com relacao as reportagens feitas sobre a Amazonia a partir de SP, RJ ou DF... Ora, como e possivel algum reporter perceber o sentimento das pessoas, a realidade endemica e deixar fluir a sensibilidade necessaria para poder captar o que ocorre em um lugar que nunca pisou? E o mesmo que fazer turismo pela internet, vendo fotografias e lendo descricoes incorretas. Deve-se preservar as nascentes, mananciais, cursos d´agua, encostas, solos arenosos, solos naturalmente encharcados... Agora, deixar de aproveitar extensas áreas planas, longe de qualquer rio ou manancial, com regime de chuvas bem definido e perfeito para a agricultura, é um desperdicio. Por que derrubar uma area de floresta para extrar minerio de ferro pode e para plantar graos nao pode? Por que pode-se remover a cobertura vegetal para construir ferrovia e para construir estrada nao pode? Por que exportar minerio de ferro (commoditie), se podiamos exportar ACO? Quando a China vem aqui comprar minerio de ferro, nosso governo deveria indagar: Qual a especificacao do aco que desejam, que nos produziremos... Depois de vendermos o ferro por US$180,00 a tonelada, compramos de volta trilhos de trem por US$1.850,00 a tonelada, mais frete!!! Negocio da China, para os chineses... O agronegocio ja percebeu isso e ao inves de exportar racao, manda o frango pronto...
Urariano  Mota, Escritor, jornalista (Olinda/PE)
Enviado em 2/12/2008 às 10:01:14 AM

Pela norma, a chamada norma culta, Luiz Weiss está certo. Diz uma gramática: "Dispensa o acento grave, indicador da frase...´a dustância´, quando a noção da distância não for bem definida, delimitada". Pelo uso que temos da língua, essa norma parece muito chata e limitadora. "Amo a distância", por exemplo, quer dizer que amo, gosto da distância, ou amo, gosto, apesar da distância?
Elcio  Machado, Cidadão (Assis/SP)
Enviado em 1/12/2008 às 11:11:42 PM

Jornalismo ao longe. Vi ao longe. Jornalismo à distância. Vi a distância. Vi à distância. Confesso que estou confuso. Não sei ao certo o que dizem as novas regras da Língua Portuguesa, mas me parece que a crase é necessária, no título do artigo. Afora isso, aqui no Brasil as cidades que nâo têm segundo turno nas eleições municipais (Pasadena não teria, pelas regras eleitorais brasileiras), em geral têm jornalismo de releases e de telefonemas. De preferência, releases e telefonemas que garantam um bom relacionamento com o Poder Público, fonte importante de receitas. Então, lá também é aqui, já faz muito tempo. A propósito, moro numa cidade que não tem segundo turno.
aloísio  Morais Martins, Jornalista (Belo Horizonte/MG)
Enviado em 1/12/2008 às 4:52:20 PM

Resta saber que compromisso esses "jornalistas" lá da Índia têm com a verdade, com a ética etc. Não tenha dúvida que de lá sairão entrevistas e matérias fictícias - com todo respeito aos indianos. Que credibilidade pode ter um jornal online como o Pasadena Now? Esta é a questão.
Zé da Silva  Brasileiro, Bancário (Belo Horizonte - MG/MG)
Enviado em 1/12/2008 às 3:53:38 PM

Não sei explicar, porém, no tempo em que eu ainda lia jornais, sempre tive a impressão de que os jornalistas, principalmente os de opinião, viviam em outro mundo. Agora vem essa história de indianos escrevendo sobre Pasadena, na Califórnia...
C.  Brayton, Tradutor (São Paulo/SP)
Enviado em 1/12/2008 às 3:09:19 PM

Desculpa a segunda postagem. Eu achava que essa história soava um pouco familiar. Acontence que apareceu em junho de 2007 na revista MacLean´s. Estava nas minhas anotaçãoes. Uma novidade não tão nova assim. Demora para chegar por vapor? Pushing the limits of outsourcing. Author: MacQueen, Ken Journal: Maclean´s Pub.: 2007-06-04 Volume: 120 Issue: 21 Pages: 38(0) ISSN: 00249262 Subject: CONTRACTING out; JOURNALISM; JOURNALISTIC ethics; NEWS agencies; INDIA; MACPHERSON, James Description: Language : English AN : 25228353 The article reports that PasadenaNow.com is outsourcing its local coverage to reporters in Mumbai and Bangalore, India. The reporters will work on features, profiles and interviews based on story ideas given to them by editor James Macpherson. U.S. journalists are appalled at the outsourcing of journalism, but Macpherson argues that he can save considerably on salaries.
C.  Brayton, Tradutoor (São Paulo/SP)
Enviado em 1/12/2008 às 12:23:58 PM

Eu moro no Brooklyn (com ypsilon, novamente incluido no alfabeto lusófono) em Nova York. Um dia, eu precisava saber se houvess uma agência do meu banco perto de onde eu ia ser naquela tarde. Liguei pro número indicado para "localização de agências." Fui recebido por uma moça com uma linda voz e charmoso sotaque que conhecia o Brooklyn tão bem como eu conheço os becos e vilelas do Delhi. Eu cresci na Pasadena. Lindo lugar. Muito rico. A prefeitura frequentemente aparece em filmes como a sede de governo de repúblicas de bananas. Felizmente ainda tem o bom e velho Star-News, com uma tradiçãoe de mais de um século.
justo  justus, analista de sistemas (são paulo/SP)
Enviado em 1/12/2008 às 9:20:01 AM

Penso que "sim! Há algo errado" Falta jornalismo, ou talvez falte algo mais grave: Quem queira jornalismo.
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Luiz Weis
Jornalista, pós-graduado em Ciências Sociais 
pela USP, onde lecionou Sociologia da Comunicação. Escreve no Observatório da Imprensa e no jornal "O Estado de S.Paulo". Entre outras atividades, foi redator-chefe das revistas "Superinteressante" e "IstoÉ", editor-assistente da "Veja", editor político e apresentador do programa "Perspectiva" da TV Cultura, editor nacional da "Visão" e editor de assuntos especiais da "Realidade". É autor, com Maria Hermínia Tavares de Almeida, de "Carro-zero e pau-de-arara: o cotidiano da oposição de classe média ao regime militar, in "História da Vida Privada no Brasil", Lilia Moritz Schwarcz (org.), 1998, e do perfil político de Vladimir Herzog (sem título), in "Vlado — Retrato da morte de um homem e de uma época, Paulo Markun (org.), 1985. Recebeu o Prêmio Esso de Jornalismo Científico, em 1990.


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